Esteja preparado/a para ajudar alguém

Avaliar corretamente o risco é essencial para sustentar a decisão do profissional de saúde na escolha do tratamento e do acompanhamento, ou para eventual encaminhamento para outros serviços.

Durante uma crise, o indivíduo tem a perceção distorcida de que o suicídio é a única solução para acabar com o seu sofrimento, pelo que não é um contrassenso que peça ajuda, mesmo que subtilmente. É, aliás, frequente existir uma consulta médica nas semanas que antecedem uma morte por suicídio. A consulta pode permitir um pedido de ajuda e deve ser vista como uma oportunidade para intervir. Os profissionais de saúde devem estar preparados para a necessidade de avaliar o risco de suicídio de um utente a qualquer altura.

A maioria das pessoas não refere espontaneamente os seus pensamentos ou planos de suicídio, podendo manifestar sinais e sintomas inespecíficos como astenia, perda de peso, insónia, cefaleias persistentes ou problemas gástricos sem causa orgânica aparente.

Avaliar corretamente o risco é essencial para sustentar a decisão do profissional de saúde na escolha do tratamento e do acompanhamento, ou para eventual encaminhamento para outros serviços. É importante ter em conta que o objetivo da avaliação do risco de suicídio não é uma simples quantificação da probabilidade de o indivíduo tentar o suicídio, mas sim delinear a melhor estratégia para prevenir que a tentativa aconteça.

Esta avaliação é realizada com base no julgamento do profissional de saúde e sustenta-se no conhecimento dos fatores de risco gerais de suicídio, através do seu reconhecimento e enquadramento na pessoa e na sua circunstância. No entanto, é uma decisão altamente subjetiva, intuitiva e dependente da experiência do avaliador. Uma boa articulação com os serviços especializados, nomeadamente através de consultoria e oportunidades de formação, pode ajudar os profissionais a tomar a decisões mais informadas.

Como profissional de saúde deve estar atento aos sinais de alarme para suicídio:

·       Discurso “suicida” com mensagens implícitas ou explícitas

·       Mudanças súbitas de comportamento (impulsividade, comportamentos de risco, isolamento social)

·       Alterações do sono ou do apetite

·       Acontecimentos de vida recentes experienciados como humilhantes (ex. desemprego recente, perda económica ou de estatuto social)

·       Dificuldades de concentração

·       Perda de interesse pelas atividades habituais (trabalho, escola, atividades sociais, desporto, …)

·       Sentimentos persistentes de culpa

·       Autocriticismo e desesperança

·       Abuso de álcool e outras substâncias

·       Doação de bens pessoais significativos

A avaliação do risco de suicídio deve ser realizada nos indivíduos que:

·       Expressam ideação suicida ou desesperança;

·       Fizeram uma tentativa de suicídio;

·       Apresentam lesões autoinfligidas (comportamentos autolesivos)

·       Têm doenças físicas que ameaçam a vida particularmente nos casos em há desfiguração, incapacidade ou queixas álgicas associadas, juntamente com sintomas psiquiátricos.

·       Têm doença psiquiátrica (casos em que a avaliação do risco de suicídio deve ser realizada periodicamente)

A entrevista clínica é uma oportunidade para a pessoa exprimir as suas queixas, sentimentos e preocupações. É possível que esta partilhe problemas que mantinha em segredo e que através do diálogo possa ajudá-la a refletir e a perspetivar o que está a acontecer.

Nestas situações é importante que:

·       Ouça.

·       Fale abertamente sobre suicídio, sempre que implícito ou suspeitado.

·       Mostre interesse e vontade de ajudar.

·       Não julgue.

·       Seja empático, não simpático.

·       Identifique e valorize os fatores protetores.

·       Não tome decisões pela pessoa.

·       Expresse a sua preocupação sobre a segurança da pessoa.

·       Proponha e discuta as alternativas disponíveis.

·       Ajude a pessoa a decidir, envolvendo-a na tomada de decisão.

Uma pergunta aberta e não invasiva, isenta de juízos de valor, dá ao indivíduo espaço para desenvolver a sua narrativa e para descrever espontaneamente as suas queixas. Perguntar “O que aconteceu nestes últimos dias?” pode ser uma boa forma de iniciar a conversa.

A avaliação do risco de suicídio culmina com a tomada de decisão sobre o encaminhamento e o tratamento do doente, garantindo a sua segurança e a resposta às necessidades identificadas. Demonstre a sua preocupação e apresente as opções que considera mais adequada. Esta pode consistir no encaminhamento imediato para o serviço de urgência, por um pedido de consulta de Psiquiatria ou pela marcação de consultas mais frequentes para reavaliação, de acordo com o risco observado.

Saiba mais sobre a avaliação e estratificação do risco de suicídio no Manual para Profissionais de Saúde.